Valuation

Valuation: quando o número que você acredita não vale nada

O valuation da sua empresa pode estar errado antes mesmo de chegar ao comprador. Entenda os erros que derrubam o preço na negociação.

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Você já parou para pensar em quanto vale a sua empresa? Não o número que você tem na cabeça, aquele baseado em esforço, anos dedicados e potencial que você enxerga melhor do que ninguém. Falo do número que um comprador, um fundo ou um banco vai enxergar quando sentar na mesa de negociação com você.

A distância entre esses dois números é onde a maioria das negociações de M&A começa a desmoronar. E o problema raramente é falta de boa vontade das partes. O problema é que o dono da empresa chega ao processo com uma convicção de valor que não foi construída com a lógica que o mercado usa para precificar ativos.

Por que o valuation de empresa falha antes da due diligence

Quando um CEO me pergunta "quanto vale minha empresa?", a primeira coisa que faço é perguntar como ele chegou ao número que tem em mente. Nove em cada dez vezes, a resposta envolve alguma combinação de: o que investiu ao longo dos anos, o que um concorrente foi vendido por há alguns anos, ou simplesmente um múltiplo de faturamento que ouviu em algum evento de negócios.

O mercado não funciona assim. Compradores sofisticados, sejam fundos de private equity, estratégicos ou family offices, precificam empresas com base em EBITDA ajustado, qualidade de receita recorrente, concentração de clientes, dependência de pessoas-chave e previsibilidade de fluxo de caixa. Faturamento bruto, por si só, não diz nada sobre o valor real do negócio.

O que vejo acontecer com frequência é o seguinte: a empresa tem uma receita expressiva, o dono projeta um múltiplo sobre isso e chega a um número ambicioso. Mas quando o processo de due diligence começa, surgem ajustes. Despesas pessoais passadas como custos da empresa, contratos de clientes sem cláusula de renovação automática, dependência de dois ou três clientes que representam a maior parte do faturamento. Cada um desses ajustes comprime o EBITDA real e, consequentemente, derruba o múltiplo aplicado.

O múltiplo certo depende do setor e do momento

Em 2026, o mercado de M&A no Brasil opera com múltiplos que variam bastante por setor. Tecnologia com receita recorrente, saúde e agronegócio de precisão tendem a capturar múltiplos mais elevados. Varejo físico, serviços intensivos em mão de obra sem diferenciação e indústria tradicional trabalham em faixas menores. Esse diferencial não é arbitrário: reflete crescimento esperado, barreiras de entrada e previsibilidade de geração de caixa.

O CEO que compara sua empresa de serviços regionais com o múltiplo de uma plataforma SaaS que leu no LinkedIn vai chegar ao processo de venda com expectativa desalinhada. E expectativa desalinhada no início de uma negociação raramente termina bem.

O que realmente move o valor na hora da negociação

Entendido o problema da referência errada, a pergunta seguinte é natural: o que, de fato, o comprador está pagando?

Ele está pagando por previsibilidade. Empresas que conseguem demonstrar que a receita do próximo ano não depende exclusivamente de novas vendas, que têm contratos plurianuais, clientes recorrentes com baixo churn e margem estável ao longo de diferentes ciclos econômicos são precificadas com prêmio. O comprador não está comprando o passado da empresa. Está comprando a confiança de que o futuro vai se sustentar sem o fundador no centro de tudo.

Esse ponto é crítico e muitas vezes subestimado. Em operações que acompanho, uma das principais razões para deságio no preço final é a dependência de pessoa-chave. Quando o EBITDA da empresa está diretamente ligado à presença do CEO fundador nas vendas, no relacionamento com clientes ou nas decisões operacionais, o comprador desconta esse risco. E desconta pesado.

Três fatores que compradores checam antes de confirmar o preço

  • Qualidade do EBITDA: o lucro operacional reflete a operação real ou está inflado por ajustes não recorrentes? Despesas adiadas, receitas antecipadas e custos compartilhados com outras empresas do grupo distorcem a base de cálculo.
  • Concentração de receita: um cliente que representa mais de um terço do faturamento é um ponto de atenção imediato. O risco de perda desse cliente vai ser precificado no valor final.
  • Governança e documentação: empresas com contratos formalizados, DRE auditada, compliance fiscal em ordem e RH estruturado passam pela due diligence com menos atrito. Empresas que "têm tudo na cabeça do dono" pagam o preço na mesa de negociação.

O erro de momento que custa mais do que qualquer ajuste contábil

Existe uma armadilha que poucos CEOs discutem abertamente: o momento em que decidem pensar em valuation. A grande maioria começa a se preocupar com o valor da empresa quando já está no processo, seja porque recebeu uma proposta não solicitada, seja porque precisa de capital e está explorando opções.

O problema é que o valuation de empresa não é algo que se constrói em semanas. É resultado de decisões operacionais, financeiras e de governança que levam de 18 a 36 meses para se consolidar nos números. Uma empresa que decide formalizar contratos, reduzir dependência de clientes-chave e profissionalizar a gestão hoje vai ver esse trabalho refletido no EBITDA daqui a alguns ciclos, não no próximo trimestre.

Isso me lembra de um processo que acompanhei com uma empresa de médio porte no setor de serviços de infraestrutura. O fundador recebeu uma abordagem de um fundo estratégico e achou que estava pronto para negociar. Durante a due diligence, surgiram três pontos críticos: contratos verbais com os dois maiores clientes, histórico financeiro sem auditoria nos últimos anos e concentração de relacionamento comercial inteiramente na figura do próprio fundador. O processo não avançou no valor esperado. Não porque a empresa fosse ruim. Mas porque não estava pronta para o escrutínio que uma transação séria exige.

O que significa estar "pronto" para uma negociação de M&A

Estar pronto não é ter o balanço perfeito. É ter documentação rastreável, EBITDA ajustado que se sustenta ao longo de pelo menos dois ou três anos, gestão que opera com alguma independência do fundador, e narrativa estratégica clara sobre por que a empresa vai continuar crescendo. Compradores não compram o que a empresa foi. Compram o que ela vai ser.

Além disso, processos de M&A bem conduzidos envolvem preparação da empresa para o mercado, não apenas para um comprador específico. Quando há competição entre múltiplos interessados, o prêmio sobre o valor base aumenta de forma significativa. Isso exige preparação, posicionamento e momento bem executado.

O que fazer na prática, agora

Com tudo isso em mente, a ação mais inteligente para um CEO ou CFO que está pensando em uma eventual transação, seja venda parcial, captação ou fusão, é começar o trabalho de valuation com pelo menos dois anos de antecedência. Não para vender. Para entender o gap entre o valor percebido e o valor real, e trabalhar sistematicamente para fechar essa distância.

O passo concreto é simples na descrição, mas exige disciplina na execução:

  1. Mapeie o EBITDA real: retire todos os custos que não pertencem à operação, normalize salários de sócios para valores de mercado, elimine receitas não recorrentes. O número que sobrar é a base real.
  2. Identifique os três maiores riscos que um comprador veria: concentração de clientes, dependência de pessoas-chave, passivos contingentes fiscais ou trabalhistas. Cada um desses tem solução, mas precisa de tempo.
  3. Estruture a governança agora: contratos formalizados, DRE com padrão auditável, organograma que faz sentido sem o fundador no centro. Isso não é burocracia. É o que diferencia uma empresa vendável de uma empresa que o fundador carrega nas costas.
  4. Conheça os múltiplos do seu setor em 2026: o mercado muda, e o referencial de preço também. O que valia cinco anos atrás pode estar acima ou abaixo do que o mercado paga hoje.

A empresa que chega ao processo de M&A com essa preparação não apenas captura um preço melhor. Ela tem o controle da narrativa, escolhe o comprador certo e negocia de uma posição de força, não de urgência.

Se você está em algum ponto dessa jornada, seja construindo valor, recebendo aproximações do mercado ou simplesmente querendo entender onde está, o diagnóstico de valuation é o ponto de partida mais honesto que existe. Não para confirmar o número que você tem em mente. Para saber o que o mercado realmente enxerga quando olha para o que você construiu.