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Captação em venture capital: retorno real ou só papel?

IRR de 17,1% no VC americano esconde falta de liquidez real aos investidores. O que isso significa para quem busca captação em 2026.

Capa: Captação em venture capital: retorno real ou só papel?

Segundo o Valor Econômico, que repercutiu o Q2 2026 US VC Fundraising and Returns Report da PitchBook, os fundos de venture capital norte-americanos voltaram a registrar métricas positivas de retorno, mas com um detalhe que muda tudo: boa parte dos ganhos existe só no papel.

A taxa interna de retorno de um ano do venture capital americano chegou a 17,1% no quarto trimestre de 2025. Número expressivo. O problema está na origem desse resultado: ele reflete valorização contábil do NAV (valor líquido dos ativos) das carteiras, não distribuição efetiva de caixa aos limited partners. Em outras palavras, os fundos estão "ricos" nas planilhas, mas os investidores ainda não viram o dinheiro entrar na conta.

Essa distinção importa muito para fundadores e CFOs que hoje avaliam buscar capital via fundos de venture capital ou private equity.

O que está por trás do número

A valorização que empurrou o IRR para cima vem das rodadas generosas de startups ligadas a tecnologia, especialmente as que captaram bilhões nos últimos 18 meses. Essas rodadas inflam o valor contábil das carteiras dos fundos, o que melhora os indicadores de desempenho reportados aos LPs.

Mas liquidez real, aquela que vem de IPOs, saídas via M&A ou recompras, ainda não acompanhou o ritmo. O mercado de saídas segue restrito. IPOs relevantes no setor de tecnologia existem, mas são exceções, não a regra.

Isso cria um paradoxo: fundos com métricas aparentemente saudáveis, mas com dificuldade crescente de devolver capital aos seus investidores dentro dos prazos originalmente prometidos.

O que o fundador precisa entender

Se você está avaliando captação junto a fundos de venture capital ou growth equity, esse cenário tem implicações diretas:

  • LPs pressionados por falta de liquidez tendem a ser mais seletivos nas novas alocações, o que enrijece o processo de fundraising para os próprios fundos
  • Fundos com carteiras represadas priorizam empresas com caminho claro para saída em 3 a 5 anos, não apostas de longo prazo
  • Valuation de entrada importa mais do que nunca: com saídas difíceis, múltiplos excessivos na captação viram problema na hora do exit
  • Due diligence ficou mais criteriosa: fundos precisam justificar cada nova alocação para LPs já questionando retornos

Na minha leitura, o que o relatório da PitchBook revela é um mercado em compasso de espera. Os fundos performaram bem no papel, mas o teste real ainda está por vir quando precisarem converter essas valorizações em caixa distribuído. Para empresas brasileiras que olham para captação internacional ou que consideram vender para fundos estrangeiros, esse contexto pede uma coisa acima de tudo: clareza sobre o próprio valuation e sobre o que torna a empresa atraente para um comprador com horizonte de saída definido.

Quem entra nessa conversa sem ter feito esse trabalho antes perde tempo, poder de negociação e, frequentemente, dinheiro.