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Venda da Mobly e conversão de dívidas: o plano de M&A do Grupo Toky

O Grupo Toky protocola plano de recuperação judicial com venda da Mobly via UPI e debt-to-equity. O que CEOs precisam entender sobre essa estrutura.

Capa: Venda da Mobly e conversão de dívidas: o plano de M&A do Grupo Toky

Segundo Exame, o Grupo Toky, controlador das marcas Tok&Stok e Mobly, apresentou à Justiça o plano de reestruturação financeira dentro do processo de recuperação judicial. O documento detalha duas frentes centrais: a alienação da operação da Mobly por meio de uma Unidade Produtiva Isolada (UPI) e a conversão de dívidas em participação acionária na holding Toky S.A.

O plano ainda não está homologado. A partir da apresentação, abre-se prazo de 30 dias para que credores apresentem objeções. Se houver contestação, o caso vai para Assembleia Geral de Credores. Se não houver, o juiz pode homologar diretamente, observados os requisitos legais.

Como funciona a UPI da Mobly

A UPI é um mecanismo que separa ativos, contratos e operações específicos de uma empresa em recuperação judicial, permitindo vendê-los de forma isolada, sem arrastar todo o grupo. No caso da Mobly, a estrutura reuniria as operações de e-commerce, varejo físico de móveis e artigos para o lar, logística, transporte e suporte operacional.

O grupo tem até 24 meses após a homologação para estruturar essa UPI, com possibilidade de prorrogação por mais 24 meses. A venda ocorreria por processo competitivo, com leilão de propostas fechadas. Dos recursos líquidos obtidos, 50% iriam para o chamado cash sweep, mecanismo de antecipação de pagamentos a credores financeiros prioritários. O restante ficaria com o grupo para reinvestimento, manutenção das operações ou pagamento de outros credores.

O que debt-to-equity significa na prática

A conversão de dívida em ações, o chamado debt-to-equity, transfere parte do risco dos credores para a posição de sócio. Quem tinha um crédito a receber passa a ter uma fatia da empresa. Para o devedor, alivia o passivo exigível e reduz a pressão de caixa de curto prazo. Para o credor, troca certeza jurídica por potencial de valorização futura, com risco proporcional à recuperação do negócio.

O grupo opera de forma integrada, combinando lojas físicas, e-commerce, logística e distribuição, o que torna a separação da Mobly uma cirurgia delicada. A interdependência operacional entre as marcas pode complicar tanto a precificação da UPI quanto a execução da venda sem impacto na Tok&Stok.

Na minha leitura

Esse plano é um manual de como não chegar a uma recuperação judicial. O Grupo Toky chegou a esse ponto com ativos relevantes e marcas com valor de mercado real, o que dá margem de manobra. Mas a estrutura de UPI em 24 meses (prorrogável por mais 24) é longa demais para um ativo de e-commerce em setor competitivo. Quatro anos de indefinição corroem equipe, fornecedores e posição de mercado.

Para CEOs e CFOs que observam esse caso de fora, o aprendizado mais direto é sobre governança de passivo. Empresas que monitoram seu valuation e estruturam planejamento patrimonial antes da crise chegam a uma negociação com credores em posição muito distinta. Quem espera a recuperação judicial para discutir estrutura de capital negocia sob pressão, com opções reduzidas e prazos impostos pelo processo.

A venda da Mobly, se acontecer, será um processo de M&A sob condições adversas. Compradores sabem disso e precificam o desconto. O ativo pode valer muito mais numa negociação conduzida fora do contexto judicial.