M&A

Venda de R$ 1 bi da Log: o que o balanço não mostra

A Log vendeu R$ 1 bilhão em ativos e o lucro caiu 32,6%. Entenda o efeito contábil pontual e o que essa operação revela sobre estratégia de M&A.

Capa: Venda de R$ 1 bi da Log: o que o balanço não mostra

Segundo NeoFeed, a Log Commercial Properties (LOGG3) registrou lucro líquido de R$ 58,7 milhões no segundo trimestre de 2026, queda de 32,6% na comparação anual. O número assustou à primeira vista. Mas quem para nos titulos perde a leitura mais relevante.

A queda tem uma causa cirúrgica: um efeito contábil pontual gerado pela maior venda de ativos da história da companhia. A Log transferiu um portfólio de R$ 1 bilhão para o fundo Itaú Log CP FII (ILCP11), estruturado pela Itaú Asset. A operação gerou R$ 157,4 milhões em despesas de estruturação, reconhecidas de uma vez só no trimestre, contra apenas R$ 465 mil no mesmo período de 2025. Isso distorceu toda a linha de resultado.

Sem esse efeito, o lucro teria sido de R$ 178,2 milhões, alta de 104,7%. O EBITDA ajustado teria chegado a R$ 225,3 milhões, crescimento de 60,5%. A receita líquida cresceu 7,3%, para R$ 66 milhões. Os fundamentos operacionais, portanto, estão acelerando, não deteriorando.

O que a operação revela sobre a estratégia da Log

O CFO Rafael Saliba deixou claro: essa transação não é evento isolado. Ela marca a entrada da Log em uma nova frente via Log Capital, gestora focada em desenvolvimento e gestão de ativos logísticos. A empresa reteve parte da receita de gestão do fundo por meio de contrato de consultoria imobiliária, convertendo um ativo vendido em fonte de receita recorrente futura.

Essa é a lógica do modelo asset-light: vender o imóvel, ficar com a gestão, liberar capital para novo ciclo de desenvolvimento. A Log acumulou R$ 1,3 bilhão em vendas de ativos só no primeiro semestre de 2026, volume superior a todo o ano de 2025, e pode fechar novas operações até dezembro.

Paralelamente, mantém 17 obras em andamento com 850 mil m² em desenvolvimento, concentrando os novos projetos no Nordeste. A expansão é financiada pela reciclagem dos próprios ativos, sem depender de endividamento pesado.

Na minha leitura

Esse caso é um exemplo claro de como operações de M&A bem estruturadas criam ruído contábil de curto prazo que mascara a criação de valor real. Quem lê apenas o lucro líquido do trimestre tira a conclusão errada. Quem entende a mecânica da operação vê uma empresa que vendeu seu maior portfólio da história, manteve receita recorrente sobre esses ativos e ainda liberou capital para 850 mil m² de novos projetos.

O ponto de atenção para CEOs e CFOs: quando uma operação desta magnitude passa pelo balanço, a comunicação com investidores, conselheiros e sócios precisa ser proativa e tecnicamente precisa. O mercado pune quem deixa o número falar sozinho. A Log teve que explicar publicamente o que o resultado não mostrava, e isso é um custo de reputação que uma boa estrutura de valuation e governança da transação poderia ter antecipado na narrativa.

O modelo que a Log está construindo, vender ativo, reter gestão, reinvestir em novos projetos, é inteligente. Mas exige que a empresa seja capaz de traduzir essa complexidade em linguagem que o mercado absorva rápido. Quem não consegue fazer isso paga o preço no preço da ação.