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Valuation da MBRF: o que o BofA vê no papel

BofA retoma recomendação de compra da MBRF com preço-alvo de R$ 26 e FCL de R$ 1,9 bi em 2027. O que isso revela sobre valuation setorial.

Capa: Valuation da MBRF: o que o BofA vê no papel

Segundo o Valor Econômico, o Bank of America retomou a recomendação de compra das ações da MBRF, elevando o preço-alvo de R$ 23 para R$ 26. O potencial de valorização implícito: 51% em relação aos níveis atuais, com as ações acumulando queda de 7,18% no ano e valor de mercado em R$ 25,2 bilhões.

A tese do banco é direta. A operação de carne bovina na América do Norte vive um ciclo ruim, mas os sinais de virada estão aparecendo. O BofA projeta que a combinação entre aumento da oferta de gado proveniente do México e fechamento de unidades de processamento ao longo de 2026 deve elevar em 6 pontos percentuais a utilização da capacidade da indústria, chegando a 85%. Esse patamar corresponde à média histórica dos últimos cinco a seis anos, o que, na prática, significa normalização operacional.

O resultado financeiro esperado dessa virada: fluxo de caixa livre de R$ 1,9 bilhão projetado para 2027, acompanhado de redução do capex e desalavancagem do balanço. Para quem avalia empresas, esse é o tipo de inflexão que muda múltiplos.

O que os números revelam sobre a tese de valor

O relatório do BofA destaca um ponto que poucos observadores têm dado o devido peso: as estimativas de EBITDA da MBRF foram mantidas estáveis ou revisadas para cima desde o fim de 2025, enquanto boa parte do setor de alimentos e bebidas no Brasil sofreu revisões negativas. Isso significa que o desconto no preço das ações reflete percepção de risco, não deterioração dos fundamentos.

Essa distinção importa para qualquer decisor que pensa em valuation. Quando o mercado penaliza uma empresa por um problema geográfico temporário enquanto o núcleo do negócio permanece sólido, a distância entre preço e valor fica explícita. O BofA está, essencialmente, apostando que o mercado está errado na precificação atual.

Ao mesmo tempo, a reformulação da BRF, subsidiária da MBRF, segue capturando sinergias, reduzindo custos e melhorando execução operacional e comercial. Esse trabalho vinha sendo ofuscado pelo ruído da América do Norte. Com a operação norte-americana se normalizando, a tese consolidada começa a aparecer no resultado.

O ciclo importa tanto quanto a empresa

Na minha leitura, o caso da MBRF ilustra algo que vejo repetidamente em análises de M&A e valuation setorial: empresas em setores cíclicos são frequentemente avaliadas no pior momento do ciclo como se aquele momento fosse permanente. A oferta restrita de gado nos EUA prejudicou todos os frigoríficos que operam lá, indistintamente. Mas nem todos têm a mesma estrutura de capital, capacidade de execução ou diversificação geográfica para atravessar o ciclo e emergir com posição mais sólida.

O que o BofA está sinalizando é que a MBRF tem essas condições. A pergunta para CEOs e CFOs que acompanham o setor não é se a empresa vai se recuperar, mas em que velocidade o mercado vai reconhecer essa recuperação no preço.

Para fundadores e gestores de empresas do agronegócio e do setor de alimentos, o movimento do BofA também serve como referência de como analistas institucionais leem inflexões de geração de caixa. Projetar fluxo de caixa livre em horizonte de 18 a 24 meses, com premissas claras de utilização de capacidade e trajetória de desalavancagem, é exatamente o tipo de narrativa que move recomendações e, consequentemente, múltiplos de saída em processos de venda.