M&A
Captação de R$ 300 mi: o que a Turbi revela sobre M&A
A Turbi avalia duas propostas de captação via equity entre R$ 200 mi e R$ 300 mi. O que esse movimento ensina sobre estruturar uma rodada com múltiplos pretende
Especialista em operações comerciais e gestão de vendas
Segundo NeoFeed, a Turbi, plataforma brasileira de locação de veículos e venda de seminovos, está avaliando duas propostas simultâneas de captação via equity entre US$ 40 milhões e US$ 60 milhões, algo entre R$ 200 milhões e R$ 300 milhões. Uma proposta vem de um fundo ocidental, com quem as negociações avançaram ao longo do primeiro semestre. A outra chegou mais recentemente, de um grupo de investidores chineses com conexão direta às montadoras que já abastecem a frota da empresa. A decisão deve ser tomada nas próximas semanas, e captar os dois simultaneamente é improvável, dado o impacto de diluição para os acionistas atuais.
O uso previsto dos recursos diz muito sobre a fase da empresa: expansão de frota, tecnologia de telemetria e estacionamentos autônomos. Não é uma rodada para cobrir prejuízo operacional, embora a Turbi tenha reportado prejuízo de R$ 47,2 milhões no primeiro semestre de 2026, com receita líquida de R$ 179,9 milhões no mesmo período. É uma rodada para escalar uma operação que já funciona e quer crescer mais rápido do que o caixa próprio permite.
O que chama atenção aqui não é o tamanho da rodada. É a origem da segunda proposta.
A Turbi não foi buscar o grupo chinês. O relacionamento comercial com as montadoras, construído ao longo das negociações de frota, abriu uma porta que ninguém havia planejado. Uma viagem à China no primeiro semestre de 2026 formalizou o que era uma conversa informal, e isso transformou um processo de captação com um pretendente em um processo competitivo com dois.
Essa dinâmica tem implicações diretas para qualquer fundador ou CFO que está estruturando uma rodada ou processo de M&A.
O que a Turbi está fazendo certo na estrutura da negociação
Processos de captação com um único pretendente raramente resultam nas melhores condições. O comprador ou investidor sabe que é o único, e isso muda o comportamento na mesa. A presença de uma segunda proposta, mesmo que não intencional, reequilibrou a negociação e obrigou ambos os lados a mostrarem suas melhores cartas.
Além do capital, as duas propostas oferecem suporte estratégico diferente. O fundo ocidental traz acesso a redes e mercados do Ocidente. O grupo chinês traz integração com montadoras e um ecossistema de mobilidade que a Turbi já conhece de perto. São apostas com perfis distintos, e a escolha entre elas é, na prática, uma decisão sobre qual alavanca estratégica a empresa quer acionar nos próximos anos.
Isso exige clareza sobre onde está o maior gargalo de crescimento: é distribuição, tecnologia, frota ou governança? Sem essa resposta definida internamente, a tendência é escolher pelo valor do cheque, e isso costuma sair mais caro lá na frente.
Na minha leitura
O caso da Turbi ilustra algo que vejo com frequência em operações comerciais complexas: o melhor negócio raramente aparece no primeiro contato. Ele aparece quando você constrói relacionamentos reais com parceiros de negócio, e esses relacionamentos, com o tempo, abrem portas que nenhum pitch deck abre.
O segundo ponto é sobre processo. Ter duas propostas na mesa não é sorte. É o resultado de uma rodada conduzida com transparência suficiente para atrair interesse genuíno de múltiplos participantes. Para qualquer empresa que pensa em valuation e captação nos próximos 12 a 18 meses, a lição é clara: competição entre pretendentes não acontece por acaso. Ela precisa ser estruturada.