Estratégia Corporativa
Selic a 7,5%: o que a proposta de Lara Resende muda para sua empresa?
Uma proposta para derrubar a Selic a 7,5% em 12 meses usando reservas internacionais acende alertas sobre câmbio, inflação e custo de capital. O que CEOs e CFOs
Estrategista-Chefe e CEO do Grupo Sapiens
Segundo o NeoFeed, a economista Ana Paula Vescovi, ex-Secretária do Tesouro Nacional, publicou análise crítica sobre a proposta do economista André Lara Resende de reduzir a Selic para cerca de 7,5% em 12 meses, usando as reservas internacionais do Brasil para conter a depreciação cambial que viria junto com a queda dos juros.
A lógica da proposta é sedutora: juros menores aliviam o custo da dívida pública e, em teoria, também o custo de capital privado. Depois da convergência inicial, a taxa se estabilizaria entre 3% e 5,5%, dentro de uma faixa atrelada à meta de inflação e ao crescimento nominal potencial. Desvios só seriam autorizados por um novo Conselho Fiscal e Monetário Nacional.
O problema, segundo Vescovi, está na execução. Ter dólares para intervir no câmbio é diferente de garantir que a pressão inflacionária será temporária. Se os investidores que financiam a dívida pública reagirem mal à queda acelerada da Selic, nenhum volume de reservas resolve. A venda recorrente de dólares para segurar o câmbio vai consumindo o colchão externo do país e, no limite, eleva o risco de um ajuste cambial abrupto, exatamente o oposto do que a proposta promete.
Além disso, a teoria fiscal do nível de preços, referência intelectual de Lara Resende, não dispensa ajuste fiscal rigoroso. John Cochrane, um dos principais nomes dessa escola, deixou claro em trabalho de 2022 que política fiscal ativa exige contrapartidas. Usar reservas como amortecedor sem o lastro fiscal adequado é uma aposta, não uma política.
O que isso significa para quem toma decisões empresariais
Para CEOs e CFOs, o debate não é acadêmico. Três pontos merecem atenção imediata:
- Custo de capital em compasso de espera: qualquer movimento relevante na Selic redefine o custo de dívida corporativa, o hurdle rate de projetos e os múltiplos de valuation em processos de M&A. Antes de travar contratos de longo prazo ou fechar estruturas de capital, vale monitorar como o mercado precifica esse cenário.
- Câmbio como variável de risco: se as reservas forem usadas de forma recorrente para segurar o real, o mercado vai precificar esse risco antes do governo agir. Empresas com receita em dólar ou passivo em moeda estrangeira precisam revisar o hedge cambial agora.
- Inflação não controlada corrói margens: uma queda de Selic mal calibrada que reacenda a inflação afeta diretamente o poder de compra dos clientes e a capacidade de repassar custos. Setores de consumo e varejo são os primeiros a sentir.
A proposta ainda é debate, não política. Mas o mercado precifica antecipação, não fato consumado.
Na minha leitura
O custo dos juros no Brasil é um problema real, estrutural e que pesa de forma desproporcional sobre quem investe e quem cresce. Ninguém discorda disso. O que me preocupa na proposta de Lara Resende é a velocidade e o instrumento: usar reservas como amortecedor de uma aposta monetária sem garantias fiscais claras é trocar um risco conhecido por outro menos previsível.
Para quem está avaliando uma aquisição, estruturando captação ou planejando uma venda de empresa nos próximos 12 a 24 meses, o cenário exige mais, não menos, rigor na modelagem de cenários macroeconômicos. Taxas de desconto, premissas cambiais e custo de dívida precisam ser estressados em pelo menos três cenários distintos. Quem planejar com uma única curva de juros vai se arrepender.