M&A
Itaú compra 35% da Prisma Capital: o que o M&A revela
O Itaú entra na Prisma Capital com 35% sem voto nem conselho. O que essa estrutura de M&A ensina sobre capital e independência para fundadores.
Estrategista-Chefe e CEO do Grupo Sapiens
Segundo o NeoFeed, o Itaú Unibanco vai adquirir 35% da Prisma Capital, gestora de ativos alternativos com R$ 28 bilhões sob gestão. O aporte é 100% primário em ações preferenciais, sem direito a voto. Os fundadores Marcelo Hallack, João Mendes e Lucas Canhoto ficam com os 65% restantes e com todo o capital votante. O valor da operação não foi divulgado.
O que chama atenção aqui não é o tamanho do negócio. É a arquitetura dele.
Nenhum sócio vendeu participação. O dinheiro vai direto para o caixa da Prisma. O Itaú não terá assento no conselho de administração nem no comitê de investimentos. A gestora segue fazendo negócios com outros bancos. Em termos práticos, os fundadores abriram o capital para um dos maiores bancos do país sem abrir mão de nenhuma decisão relevante.
O que os recursos vão financiar
A estratégia da Prisma gira em torno do que os sócios chamam de "company building" de plataformas de originação. Hoje, o grupo já opera originadoras de consignado privado e público, compra de ativos judiciais e cotas sêniores. O capital do Itaú vai servir para dois fins: aumentar o volume que a própria gestora aloca nos fundos que capta e financiar o desenvolvimento ou aquisição de novas plataformas de originação. Uma securitizadora está no radar, segundo João Mendes, embora os alvos específicos não tenham sido revelados.
É uma jogada de escala. Com mais capital próprio alocado nos fundos, a Prisma alinha ainda mais seu interesse ao do cotista e amplia a capacidade de originação sem depender exclusivamente de captação externa.
A estrutura que protege o fundador
O negócio nasceu sem processo competitivo e sem assessor financeiro, a partir da relação já existente entre as duas casas. As conversas duraram cerca de seis meses. A operação ainda depende de aprovação do Cade e do Banco Central.
Essa origem importa. Transações construídas a partir de relacionamento tendem a ter estruturas mais flexíveis e termos mais favoráveis para o vendedor, exatamente porque não há concorrência artificial de processo criando pressão de prazo.
Na minha leitura
Essa operação é um caso de M&A bem desenhado do ponto de vista do fundador. A Prisma capturou liquidez e capacidade de crescimento sem entregar controle. Ações preferenciais sem voto, sem assento em conselho, sem exclusividade de relacionamento bancário: cada cláusula foi pensada para preservar a independência operacional.
O modelo levanta uma pergunta relevante para qualquer fundador que cogita abrir o capital parcialmente: qual é o preço real da independência? Nesse caso, os sócios da Prisma aparentemente decidiram que vale mais ter um sócio financeiro robusto com zero interferência do que manter 100% do controle com menor capacidade de alocação.
Outro ponto que merece atenção: o uso do capital é inteiramente voltado para crescimento, não para liquidez dos sócios. Isso sinaliza ao mercado que os fundadores estão no jogo de longo prazo, o que tende a preservar ou aumentar o valuation em uma eventual rodada futura ou evento de liquidez.
Para CEOs e fundadores que pensam em atrair capital institucional sem perder o controle da operação, essa estrutura oferece um blueprint concreto de como fazer isso em 2026.