M&A
IPO da Belron: valuation de € 30 bi e o que aprender
A Belron avalia IPO acima de € 30 bilhões em 2026. O que a estratégia de Carlos Brito ensina sobre valuation e abertura de capital para CEOs.
Estrategista-Chefe e CEO do Grupo Sapiens
Segundo a Bloomberg, reportado pelo NeoFeed, a Belron, grupo global de reparos automotivos dono das marcas Autoglass, Carglass e Safelite, avalia um IPO no próximo ano com valuation mirando mais de € 30 bilhões, algo próximo de R$ 180 bilhões. A companhia faturou € 6,7 bilhões em 2025 e atende mais de 17 milhões de veículos por ano, operando 3.500 unidades espalhadas por praticamente todos os continentes.
A estrutura de capital da empresa diz muito sobre como esse tipo de operação funciona. Metade da Belron pertence ao conglomerado belga D'Ieteren Group. A outra metade está distribuída entre fundos de private equity de primeira linha: Clayton Dubilier & Rice, Hellman & Friedman, o fundo soberano de Singapura GIC e a gestora BlackRock. Quando esse perfil de investidor entra, a saída via bolsa não é surpresa, é a tese desde o início.
Desde 2023, a empresa é comandada pelo brasileiro Carlos Brito, o mesmo executivo que transformou a AB InBev em uma das maiores cervejarias do mundo. Sob sua liderança na AB InBev, o valor de mercado da companhia quase quintuplicou, chegando a US$ 141 bilhões. Brito acumulou mais de US$ 200 milhões em salário e venda de ações ao longo dessa trajetória. Recusou cadeiras em conselhos após sair em 2021 e aceitou o desafio operacional de levar a Belron ao mercado público.
Amsterdã aparece como praça preferida dos acionistas para a listagem, à frente de Nova York, conforme o Financial Times. A Belron já vinha conversando com bancos desde o início do ano sobre uma eventual oferta no segundo semestre de 2025, o que não se concretizou. A companhia também refinanciou linhas de crédito durante os preparativos, sinal claro de que o processo avança com estrutura.
No recorte geográfico, a operação americana Safelite responde por cerca de 55% das vendas globais. No Brasil, a presença se dá pela marca Carglass, embora a Belron tenha vendido 60% da operação local à Advisia Investimentos em 2015.
Na minha leitura
O caso da Belron é um exemplo cristalino de como fundos de private equity estruturam valor antes de acessar o mercado público. A empresa não está indo a bolsa por necessidade de caixa. Está indo porque o ciclo de maturação chegou ao ponto em que o mercado público oferece o melhor múltiplo de saída para os sócios financeiros.
A escolha de Amsterdã em vez de Nova York também merece atenção. Para empresas europeias com base de receita diversificada, a Euronext tem oferecido condições regulatórias e de precificação competitivas. Não é uma decisão emocional, é uma decisão de onde o ativo vai ser mais bem precificado pelo mercado.
Para fundadores e CEOs que pensam em venda de empresas ou abertura de capital no médio prazo, o movimento da Belron reforça um princípio que vejo se repetir nas operações que acompanho: a preparação começa anos antes da transação. Governança, refinanciamento de dívida, escolha de praça, perfil do CEO. Cada detalhe comunica algo ao mercado antes mesmo do prospecto ser publicado.