Estratégia Corporativa

Habib's entra em RJ com dívidas de R$ 265 mi

O Grupo Gennius pediu recuperação judicial com R$ 265,2 mi em dívidas. O que esse caso revela sobre gestão de dívida e Selic alta para CEOs e CFOs.

Capa: Habib's entra em RJ com dívidas de R$ 265 mi

Segundo o Brazil Journal, o Grupo Gennius, dono das marcas Habib's, Ragazzo e Tendal, entrou com pedido de recuperação judicial listando R$ 265,2 milhões em dívidas. O pedido foi deferido pelo juiz Jomar Juarez Amorim, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.

O Bradesco concentra cerca de 40% dos créditos. Daycoval, Original e Inter também figuram entre os credores. O grupo tem agora 60 dias para apresentar seu plano de reestruturação, detalhando as condições que pretende oferecer a cada credor.

A tutela cautelar que não foi suficiente

Dois meses antes do pedido de RJ, o Gennius havia obtido uma tutela cautelar para ganhar tempo e negociar diretamente com os bancos. A proteção funcionou tecnicamente, mas não resolveu o problema de fundo. Como fontes próximas à companhia relataram ao Brazil Journal: é muito difícil uma empresa que entra com cautelar não entrar em RJ. O caminho foi natural.

Essa sequência, cautelar primeiro, RJ depois, é um padrão que qualquer CFO precisa reconhecer. A cautelar compra tempo. Não compra solução. Quando a estrutura de capital está comprometida e as margens operacionais não suportam o custo da dívida, a negociação extrajudicial raramente chega a um acordo satisfatório para todas as partes.

O que a Selic tem a ver com isso

O Habib's não quebrou por vender esfiha barata. Quebrou porque o custo do dinheiro ficou alto demais para uma operação com margens apertadas e estrutura de dívida relevante.

Com a Selic atual acima de 13% ao ano, empresas que cresceram alavancadas em um ciclo de juros mais baixos estão sendo testadas de forma brutal. Não são só as varejistas. Franquias, redes de alimentação, empresas de serviços com alto custo fixo: todas sentem o mesmo aperto.

O ponto crítico para quem toma decisão é este: a dívida que parecia administrável com Selic a 8% pode ser insuportável com Selic a 13%. Essa conta precisa ser refeita agora, não quando o caixa estiver no limite.

Na minha leitura

O caso Gennius tem uma lição clara para fundadores e CFOs: o momento de renegociar dívida é quando você ainda tem poder de barganha, não quando os bancos já estão monitorando de perto. Uma empresa com R$ 265 milhões em passivo e Bradesco concentrando 40% dos créditos tem pouquíssima margem para impor condições dentro de uma RJ.

A due diligence financeira periódica, especialmente em ciclos de juros altos, existe exatamente para identificar esse tipo de fragilidade antes que ela vire processo judicial. Empresas que fazem esse exercício com regularidade chegam à mesa de negociação com opções. As que não fazem chegam com urgência, e urgência destrói valor em qualquer processo de reestruturação.

O valuation de uma empresa em RJ cai de forma não linear. O ativo operacional pode continuar funcionando, as marcas podem continuar vendendo esfiha, mas o passivo judicial, a incerteza regulatória e a perda de fornecedores e talentos corroem o valor mais rápido do que qualquer projeção de fluxo de caixa consegue capturar. Quem considerar uma aquisição oportunista de ativos nesse processo vai encontrar um processo longo e complexo pela frente.