Estratégia Corporativa

Governança corporativa: a lição da Natura com o mercado

A Natura antecipou resultados abaixo do consenso e as ações subiram 5,2%. O que CEOs e CFOs precisam aprender sobre transparência com investidores.

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Segundo o Brazil Journal, a Natura tomou uma decisão incomum: antecipou a divulgação parcial de seus resultados do segundo trimestre antes dos números completos e auditados, previstos para 10 de agosto. A receita reportada ficou 6% abaixo do consenso dos analistas, que esperavam R$ 5,5 bilhões no período.

A reação do mercado surpreendeu quem apostava no pior. A ação chegou a subir 7,5% ao longo do dia, liderou as altas do Ibovespa e fechou com valorização de 5,2%. Um resultado que, na superfície, parece paradoxal: empresa erra a entrega e o mercado a recompensa.

O que mudou entre um trimestre e outro

O contexto importa aqui. No quarto trimestre de 2024, a Natura decepcionou na rentabilidade e viu suas ações despencarem no dia da divulgação. Depois disso, a empresa rodou diversas conversas com investidores. A mensagem que ouviu foi clara: comunicação mais frequente e transparente, sem surpresas.

No primeiro trimestre, a companhia não havia sinalizado que o segundo seria tão difícil operacionalmente. Quando essa visibilidade apareceu internamente, a decisão foi comunicar antes. Resultado: o mercado processou a informação sem o choque que uma divulgação abrupta teria gerado.

Esse é o ponto central que qualquer CEO ou CFO precisa internalizar. O problema raramente é o número ruim em si. O problema é o número ruim sem contexto, sem antecipação, sem narrativa de onde a empresa vai a partir dali.

Transparência como instrumento de governança corporativa

Empresários e gestores costumam tratar comunicação com o mercado como uma obrigação regulatória. Cumpre-se o que a CVM exige e ponto. Essa visão custa caro, especialmente em momentos de pressão operacional.

O que a Natura demonstrou é que governança corporativa ativa, com comunicação proativa mesmo quando as notícias são ruins, constrói um ativo intangível difícil de precificar: a credibilidade junto a quem aloca capital. Investidores toleram resultados abaixo do esperado com muito mais facilidade quando não se sentem surpreendidos.

Alguns elementos que diferenciam essa abordagem:

  • Antecipar a comunicação ruim reduz a volatilidade no momento da divulgação oficial
  • Rodadas de conversa com investidores entre resultados criam canal de escuta ativa, não apenas de transmissão
  • A narrativa sobre o que está sendo feito para corrigir o curso vale tanto quanto o número em si
  • Consistência entre o que se fala e o que se entrega ao longo do tempo é o que consolida múltiplos de valuation mais elevados

Na minha leitura

O caso da Natura ilustra algo que vejo repetidamente em empresas que se preparam para captação ou para um processo de M&A: quem constrói histórico de comunicação limpa e sem surpresas negocia em posição muito mais favorável. O comprador ou investidor já chegou à mesa com um nível de confiança que leva meses para ser construído, e que nenhum pitch deck substitui.

A lição não é restrita a companhias abertas. Fundadores e sócios que mantêm seus conselhos, investidores e partes interessadas informados com regularidade, inclusive quando os números pressionam, pagam um custo de capital menor e fecham transações com menos fricção. Transparência não é virtude corporativa abstrata. É vantagem competitiva concreta em qualquer processo que envolva terceiros avaliando o valor do seu negócio.