Estratégia Corporativa
Estratégia corporativa: lições de resiliência da Figueira Rubaiyat
A figueira centenária do Rubaiyat, com 50% de saúde comprometida, ensina sobre manutenção de ativos críticos e estratégia corporativa de longo prazo.
Analista e especialista em Inteligência Artificial
Segundo o NeoFeed, a Figueira do Rubaiyat, com 130 anos de existência e tombada como Patrimônio Ambiental de São Paulo, está com apenas 50% de sua composição saudável. A copa que um dia atingiu quase 50 metros de diâmetro hoje se sustenta por cabos de aço e cordas. A família Iglesias, proprietária do restaurante A Figueira Rubaiyat, inaugurado em 2001 nos Jardins, investe entre R$ 700 mil e R$ 1 milhão por ano na preservação da árvore. O biólogo Ítalo Mazzarella supervisiona os cuidados quase diariamente: higienização, adubação rigorosa e até uso de um equipamento chamado sismotron, que simula microtremores para afastar cupins e outras pragas. O problema de fundo é estrutural. As raízes da Ficus benghalensis, espécie originária do sul da Índia e uma das maiores do mundo, foram progressivamente comprometidas pelo crescimento urbano acelerado de São Paulo e pelas obras na região. O que era um sistema radicular expansivo, capaz de transformar uma única árvore em uma rede de troncos interligados, perdeu espaço e nutrição para o concreto.
O futuro da árvore permanece incerto, mesmo com todo o investimento e monitoramento contínuo.
Na minha leitura, esse caso tem uma dimensão que vai além da botânica ou da gastronomia paulistana. Para quem trabalha com IA aplicada a operações e gestão de ativos, a figueira do Rubaiyat é uma metáfora quase perfeita para o que acontece com sistemas tecnológicos legados dentro de grandes empresas.
Pense no paralelo: um ativo construído ao longo de décadas, absolutamente central para a identidade e o valor do negócio, que foi sendo degradado não por negligência intencional, mas pelo crescimento desordenado ao redor dele. Quando a empresa percebe o problema, metade da estrutura já está comprometida. E o custo de recuperação, entre R$ 700 mil e R$ 1 milhão ao ano, é exponencialmente maior do que teria sido a manutenção preventiva.
Sistemas de ERP com 15 anos de customizações sobrepostas, bases de dados fragmentadas que nunca foram integradas, processos automatizados nos anos 2000 que hoje rodam em servidores físicos sem monitoramento adequado: esse é o portfólio tecnológico de boa parte das empresas de médio e grande porte no Brasil em 2026. O equivalente corporativo da figueira podada.
A diferença crítica é que, no caso do Rubaiyat, existe um biólogo supervisionando a árvore quase diariamente. Nas empresas, o equivalente a esse monitoramento contínuo, hoje, é uma camada de IA aplicada à observabilidade de sistemas: agentes que identificam anomalias em tempo real, mapeiam dependências ocultas entre sistemas e antecipam pontos de falha antes que eles se tornem irreversíveis. Não é ficção científica. É o que plataformas de AIOps já fazem em empresas que decidiram tratar infraestrutura tecnológica como ativo estratégico, não como custo de TI.
O que o caso da figueira demonstra com clareza é que ativos com valor histórico e estratégico não se recuperam sozinhos. Eles precisam de diagnóstico honesto, investimento consistente e monitoramento inteligente. Quem achar que pode postergar essa conversa vai, eventualmente, estar sustentando a estrutura com cabos de aço.