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Captação de bond: o que a Alloha ensina sobre refinanciamento

A Alloha emitiu US$ 350 mi em bonds a 12,25% ao ano. O que essa operação revela sobre gestão de passivo e timing de captação empresarial.

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Segundo o Brazil Journal, a Alloha Fibra, provedora de fibra ótica controlada pela eB Capital e que opera atualmente com a marca Giga+, captou US$ 350 milhões com a emissão do seu primeiro bond internacional. O papel saiu com yield de 12,25% ao ano e vencimento em fevereiro de 2032. O destino dos recursos é direto: refinanciar dívidas de curto e médio prazos, alongando em cerca de um ano e meio o prazo médio do passivo da companhia.

O CEO Roger Solé foi transparente sobre a motivação. A empresa vivia sob pressão constante de vencimentos próximos, o que consumia atenção de gestão que deveria estar voltada para crescimento. Quem já operou uma empresa com dívida curta sabe exatamente do que ele está falando: o calendário de vencimentos passa a ditar a agenda estratégica, e não o contrário.

Após o hedge cambial, o custo efetivo da operação ficou pouco acima de CDI mais 4%. Eduardo Sirotsky Melzer, chairman da Alloha e CEO da eB Capital, reconheceu que a taxa parece alta isoladamente, mas colocou em contexto: trata-se da primeira emissão de um setor que nunca havia acessado o mercado de bonds no Brasil, realizada num ambiente macroeconômico adverso. Esse enquadramento importa. Taxa de emissão não existe no vácuo; ela reflete risco percebido, histórico de crédito e momento de mercado.

A operação acontece enquanto a eB Capital conduz um processo para dar saída aos investidores minoritários da Alloha, com conversas em andamento com potenciais compradores estratégicos. Ou seja, a empresa está simultaneamente arrumando o balanço e preparando o terreno para um evento de liquidez. Esse sequenciamento não é coincidência.

O que essa operação revela sobre gestão de passivo

Empresas que chegam a um processo de venda ou captação com o passivo mal estruturado pagam caro por isso, literalmente. Dívidas curtas e concentradas reduzem o valuation porque aumentam o risco percebido pelo comprador ou pelo investidor. Um balanço com perfil de vencimento alongado transmite previsibilidade operacional e sinaliza maturidade de gestão.

Alguns pontos que essa operação ilustra bem:

  • Refinanciar antes de precisar é mais barato do que refinanciar sob pressão de vencimento
  • O custo do bond (CDI + 4% após hedge) precisa ser comparado ao custo de oportunidade de operar com incerteza permanente de liquidez
  • Acesso ao mercado de capitais internacional abre uma classe de investidores que o mercado doméstico não alcança
  • O momento da captação foi coordenado com o processo de M&A, o que valoriza a empresa na negociação

Na minha leitura

O movimento da Alloha é um caso didático de como preparar uma empresa para um evento de liquidez. Antes de sentar com compradores estratégicos ou fundos, a gestão resolveu o problema que mais assustaria qualquer comprador criterioso: um passivo com vencimentos curtos e concentrados, que forçava a operação a viver de rolagem em rolagem.

Empresas que chegam a processos de M&A com o balanço desorganizado negociam em desvantagem. O comprador usa cada ponto de fragilidade financeira como argumento para reduzir o preço ou impor condições mais duras no SPA. Arrumar o passivo antes de iniciar o processo é, na prática, uma forma de preservar o valuation.

A taxa de 12,25% parece alta. Mas o custo real de chegar a uma negociação com dívida curta e sem fôlego de caixa é muito maior, só que invisível no demonstrativo financeiro.