Estratégia Corporativa
Ações brasileiras despencam 19% após reeleição de Lula
Reeleição de Lula derruba ADRs brasileiros em NY. O que CEOs e CFOs precisam entender sobre risco político e decisões comerciais agora.
Especialista em operações comerciais e gestão de vendas
Segundo a Exame, todas as 20 ações e ADRs de empresas brasileiras negociadas em Nova York operavam no vermelho na madrugada de 26 de outubro, horas depois de confirmada a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As perdas chegaram a 19,49% na PagSeguro e 19,47% na XP. Itaú recuou 17,79%, Bradesco 17,69% e Petrobras 15,9%. O ETF EWZ, referência para o Brasil no mercado americano, caía 19,6%.
Exportadoras sentiram menos. Embraer recuou apenas 1,20%, enquanto Vale e Gerdau também amorteceram a queda pela valorização do dólar. O contrato de real em Chicago apontava para R$ 5,57 por dólar.
O movimento inverteu um rali relevante. Desde o primeiro turno, em 4 de outubro, quando Flávio Bolsonaro terminou à frente, o Ibovespa subiu quase 7% e superou pela primeira vez os 200 mil pontos. Varejo e construção civil lideraram essa alta. Na sexta-feira anterior à votação, XP subiu 3,61%, Petrobras 2,11% e Itaú 1,90%. Em poucas horas de apuração, tudo isso foi devolvido.
Alfredo Menezes, CEO da Armor Capital, resumiu o humor do mercado em entrevista à Exame durante a apuração: "A bolsa vai devolver tudo e mais um pouco." O principal receio, segundo ele, é a trajetória das contas públicas, problema que, vale registrar, nenhum dos dois candidatos endereçou com clareza.
O que esse movimento revela para quem decide
Os setores mais castigados foram exatamente os mais sensíveis a juros: financeiro, varejo, construção. Quem havia apostado no rali entre os dois turnos acordou na segunda-feira com posições no vermelho.
Para fundadores e gestores com operações no Brasil, o recado prático é direto: o custo de ignorar risco político na precificação de contratos, metas e projeções ficou muito mais caro essa semana.
O ciclo que vimos, subida rápida baseada em expectativa e queda abrupta na confirmação do resultado, é o comportamento típico de mercados que operam com prêmio de incerteza elevado. Quando esse prêmio se resolve de forma adversa ao que o mercado esperava, a correção não é gradual.
Na minha leitura
Do ângulo de quem estrutura operações comerciais, esse tipo de volatilidade tem um efeito concreto e muitas vezes subestimado: ele paralisa decisões. Equipes de vendas perdem velocidade quando o cliente final adia compras à espera de clareza macroeconômica. Ciclos de negociação que já eram longos ficam ainda mais longos.
A resposta não é esperar o mercado se estabilizar. É construir processos comerciais que funcionem independentemente do humor externo: funis bem definidos, times treinados para manter cadência mesmo em cenários adversos e indicadores que separem o que é volatilidade passageira do que é queda estrutural de demanda.
Empresas com operações comerciais robustas atravessam esse tipo de turbulência sem perder posição competitiva. As que dependem do "vento a favor" perdem terreno toda vez que o ambiente muda. E o ambiente, como vimos, pode mudar em poucas horas.