Estratégia Corporativa
99Pay vira financeira: o que muda no crédito brasileiro
99Pay recebe licença de financeira do BC e ganha acesso a CDBs e RDBs. O que essa mudança regulatória significa para o mercado de crédito em 2026.
Estrategista-Chefe e CEO do Grupo Sapiens
Segundo o Valor Econômico, a 99Pay recebeu autorização do Banco Central para operar como Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento (SCFI), a chamada financeira. A fintech deixa para trás a licença de Sociedade de Crédito Direto (SCD) e passa a ter acesso a um arsenal regulatório mais amplo: pode emitir CDBs e RDBs, desenvolver novos produtos de crédito e captar recursos de formas que a licença anterior simplesmente não permitia.
A diferença prática é relevante. Uma SCD opera com capital próprio. Uma SCFI capta de terceiros, o que muda completamente a equação de custo de captação e a capacidade de escala. Para a 99Pay, braço financeiro da maior plataforma de mobilidade urbana do Brasil, essa transição representa acesso a uma alavancagem que antes ficava fora do alcance.
Rafael Leal, diretor jurídico e de compliance da empresa, descreveu a licença como "base sólida para acelerar o desenvolvimento de produtos" e reforçou o objetivo de construir "uma plataforma financeira cada vez mais completa para os brasileiros". A linguagem corporativa é padronizada, mas o movimento regulatório é concreto.
O que muda de fato para o mercado
Licenças do BC não são cosméticas. Elas determinam o perímetro do que uma instituição pode fazer, com quem pode captar e como precifica o risco. A migração de SCD para SCFI é um upgrade estrutural, não incremental.
Alguns pontos que merecem atenção de quem acompanha o setor:
- Custo de capital: acesso a CDBs e RDBs reduz a dependência de captação via equity ou dívida sênior. Com taxa Selic ainda elevada, essa mudança tem impacto direto na margem de crédito.
- Portfólio de produtos: financeiras podem estruturar operações de crédito mais complexas, incluindo crédito consignado, financiamento de bens e produtos com garantia real.
- Concorrência no varejo financeiro: a 99Pay entra em um território onde já competem Nubank, Mercado Pago e Inter, todos com licenças equivalentes ou mais amplas.
A base de usuários da 99, construída sobre mobilidade urbana, é o ativo estratégico aqui. Frequência de uso gera dados transacionais. Dados transacionais alimentam modelos de crédito. Crédito bem precificado vira margem. Essa é a lógica que o mercado já viu funcionar no Mercado Pago, e que a 99Pay agora tem licença para perseguir com mais intensidade.
Na minha leitura
Esse movimento confirma uma tendência que acompanho de perto: empresas com grande base de clientes cativos estão usando o sistema regulatório do BC como alavanca competitiva. A licença de financeira não é o destino, é o instrumento. O destino é a receita recorrente de crédito sobre uma base que já usa o app por outro motivo.
Para fundadores e CFOs que operam em setores com alto volume transacional, vale a reflexão: sua empresa tem dados suficientes para justificar uma estrutura financeira própria? O custo regulatório de uma SCD ou SCFI pode ser menor do que parece quando comparado ao spread que você paga para financiar clientes via terceiros. Empresas que entenderam isso mais cedo capturaram margem que antes ficava no banco.
O planejamento patrimonial e a estrutura societária por trás de movimentos regulatórios como esse raramente aparecem nos comunicados. Mas são eles que determinam se a licença vira valor de verdade ou só despesa de compliance.