Valuation
Por que 67% dos CEOs superestimam o valor da sua empresa
CEOs brasileiros superestimam o valor das empresas em até 40%. Descubra os 4 erros que destroem valuations e como evitá-los em 2026.
Estrategista-Chefe e CEO do Grupo Sapiens
Por que 67% dos CEOs superestimam o valor da sua empresa
Recebo pelo menos três ligações por semana de CEOs que querem vender a empresa por um preço que está 30% a 40% acima do que qualquer comprador pagaria. A conversa sempre começa igual: "Thales, minha empresa vale pelo menos R$ 50 milhões, mas os interessados só oferecem R$ 35 milhões. Eles não entendem o potencial do negócio."
O problema não são os compradores. A última pesquisa da EY com 340 executivos brasileiros mostrou que 67% dos CEOs superestimam o valor das próprias empresas. Você pode estar nesse grupo sem perceber.
A matemática emocional que quebra valuations
Quando você construiu uma empresa do zero, cada real investido carrega uma carga emocional. Você lembra das noites sem dormir, dos empréstimos pessoais, dos primeiros funcionários. Essa memória afetiva contamina a análise financeira.
Vi isso acontecer com o fundador de uma empresa de tecnologia em São Paulo. Ele insistia que a empresa valia R$ 80 milhões porque "investiu R$ 15 milhões ao longo de 8 anos". O EBITDA era de R$ 4,2 milhões. Mesmo aplicando múltiplos generosos para o setor (12x a 14x), chegávamos no máximo a R$ 58 milhões.
O mercado não paga pelo seu esforço. Paga pelo fluxo de caixa futuro.
Como o viés de ancoragem distorce sua percepção
Seu cérebro usa a primeira informação que recebe como âncora para todas as decisões seguintes. Se você começou imaginando que a empresa vale R$ 100 milhões, qualquer análise posterior vai tentar justificar esse número.
Essa ancoragem explica por que muitos CEOs rejeitam ofertas razoáveis esperando por um "comprador que entenda o valor real". Esse comprador raramente aparece.
Os 4 erros fatais que inflam artificialmente seu valuation
Depois de avaliar mais de 200 empresas nos últimos três anos, identifiquei quatro erros que sistematicamente levam a superavaliações:
1. Usar múltiplos de empresas que não são comparáveis
Você pega os múltiplos de uma empresa de tecnologia listada na B3 e aplica na sua distribuidora regional. Erro clássico. Empresas listadas têm liquidez, governança e transparência que justificam múltiplos maiores.
Uma metalúrgica de Caxias do Sul aplicou múltiplos de 18x EBITDA (típicos de SaaS) no seu negócio industrial. O múltiplo correto para o setor era 6x a 8x. A diferença: R$ 42 milhões a menos no valuation.
2. Projetar crescimento otimista demais
Suas projeções mostram crescimento de 25% ao ano pelos próximos cinco anos. Mas a empresa cresceu 8% no último ano e o setor cresce 12%. De onde virão esses 25%?
O DCF (Discounted Cash Flow) é sensível às premissas de crescimento. Uma diferença de 5 pontos percentuais na taxa de crescimento pode mudar o valuation em 30%.
3. Subestimar riscos e usar taxa de desconto baixa
Você usa WACC de 12% porque "a empresa tem baixo risco". Mas 73% da receita vem de dois clientes, você não tem contratos de longo prazo e depende de um fornecedor único para matéria-prima.
Risco concentrado exige taxa de desconto maior. Uma taxa de 18% em vez de 12% pode reduzir o valuation em 25%.
4. Ignorar os descontos por falta de liquidez
Sua empresa não tem ações negociadas em bolsa. Não há mercado secundário. O comprador sabe que será difícil revender rapidamente. Por isso aplica um desconto de 20% a 35% sobre o valor teórico.
Esse desconto é real e inevitável. Fingir que não existe só atrasa a venda.
O que fazer para ter um valuation realista em 2026
Primeiro, separe emoção de análise financeira. Contrate uma avaliação externa independente. Custa entre R$ 15 mil e R$ 35 mil, mas evita erros que podem custar milhões.
Segundo, use múltiplos de empresas realmente comparáveis. Mesmo setor, mesmo porte, mesmo modelo de negócios. A KPMG mantém um banco de dados com transações brasileiras por setor que serve de referência.
Terceiro, seja conservador nas projeções. Prefira subestimar e surpreender positivamente do que criar expectativas impossíveis de cumprir.
Perguntas que todo CEO deveria fazer antes de definir preço
- Qual foi meu crescimento médio nos últimos três anos?
- Quantos clientes representam mais de 10% da receita?
- Minha margem EBITDA está acima ou abaixo da média do setor?
- Que riscos operacionais poderiam afetar o fluxo de caixa nos próximos dois anos?
- Por que um comprador pagaria um prêmio pela minha empresa?
Se você não tem respostas claras, seu valuation provavelmente está inflado.
Três sinais de que você está superestimando sua empresa
Primeiro sinal: você recebeu três propostas independentes e todas estão 20% abaixo da sua expectativa. O problema não são os compradores.
Segundo sinal: seus múltiplos estão significativamente acima da média do setor sem justificativa clara (crescimento superior, margens maiores, posição competitiva diferenciada).
Terceiro sinal: suas projeções de crescimento dependem de "oportunidades que estão surgindo" ou "parcerias que estão sendo negociadas". Mercado paga por resultados, não por possibilidades.
Quando vejo esses três sinais juntos, sei que o CEO precisa recalibrar completamente suas expectativas.
A diferença entre preço justo e preço dos sonhos
O preço justo é aquele que um comprador racional pagaria baseado nos fundamentos da empresa. O preço dos sonhos é baseado no potencial que só você enxerga.
Tive um cliente que insistia em vender por R$ 25 milhões quando o valor justo era R$ 18 milhões. Passou dois anos tentando. Quando finalmente aceitou R$ 19 milhões, descobriu que poderia ter investido os R$ 18 milhões recebidos há dois anos e ter mais dinheiro hoje.
Tempo também tem custo.
Como calibrar expectativas sem deixar dinheiro na mesa
Comece com uma avaliação técnica rigorosa usando três metodologias: fluxo de caixa descontado, múltiplos de mercado e valor patrimonial ajustado. A convergência dos três métodos indica o valor justo.
Depois, identifique o que genuinamente diferencia sua empresa:
- Contratos de longo prazo que garantem receita recorrente?
- Tecnologia proprietária que cria vantagem competitiva?
- Posição de mercado dominante em nicho específico?
- Margem operacional consistentemente superior aos concorrentes?
Se você tem diferenciais reais, eles justificam um prêmio. Se não tem, aceite que sua empresa vale o que empresas similares valem.
O momento certo para vender pelo melhor preço
Timing importa. Venda quando:
- Sua empresa está crescendo consistentemente
- As margens estão estáveis ou melhorando
- Você tem pipeline de oportunidades documentado
- O setor está atrativo para investidores
- Sua situação pessoal permite negociar com calma
Vender sob pressão sempre resulta em desconto.
Com tudo isso em mente, a ação mais inteligente agora é fazer uma avaliação independente da sua empresa. Não para vender imediatamente, mas para entender o valor real e identificar o que precisa melhorar para chegar ao preço que você quer.
Conhecer o valor real da sua empresa não é pessimismo. É o primeiro passo para tomar decisões que realmente criem valor. E quando chegar a hora de vender, você não será mais um dos 67% que superestimam. Será um dos 33% que vendem pelo preço certo.