Valuation
Valuation e captação de recursos: o que o mercado distorce
Na minha experiência assessorando empresas em processos de captação, o erro mais comum não é técnico: é o CEO que acredita que um bom valuation é suficiente par
Estrategista-Chefe e CEO do Grupo Sapiens
Valuation e captação de recursos: o que o mercado distorce
Uma reunião que aconteceu há poucas semanas ficou na minha cabeça. O CFO de uma empresa de serviços industriais com faturamento relevante me apresentou um deck impecável: projeções detalhadas, múltiplos setoriais bem fundamentados, análise de comparáveis robusta. O valuation estava bem construído. E ainda assim, a empresa estava há quase um ano tentando fechar uma rodada de captação sem sucesso.
Quando perguntei quantas conversas com investidores tinham acontecido antes de o processo formal começar, o silêncio foi a resposta. A empresa tinha um valuation excelente e zero relacionamento com o mercado de capital. Esse descompasso, na minha visão, é o grande erro que CEOs e CFOs cometem ao iniciar um processo de captação em 2026.
A confusão entre valuation e atratividade para investidores
Há uma crença muito difundida de que um valuation bem feito é, por si só, um argumento de venda. Discordo diretamente disso. Valuation é uma linguagem, não uma promessa. Ele descreve o que a empresa vale segundo determinadas premissas. O que atrai capital é outra coisa: é a combinação de tese clara, governança verificável e capacidade demonstrada de execução.
Na prática, o que tenho observado é que investidores institucionais, sejam fundos de private equity, family offices ou gestoras de crédito estruturado, olham para o valuation como um ponto de partida para a conversa, não como um argumento de encerramento. A pergunta real que eles fazem, às vezes implicitamente, é: por que esse múltiplo faz sentido para esse negócio específico, nesse setor, nesse momento?
E aqui fica interessante. Empresas que respondem bem a essa pergunta não são necessariamente as que têm o EBITDA mais alto ou o crescimento mais acelerado. São as que têm a narrativa mais coerente entre o que a empresa é hoje e o que ela pode se tornar com capital externo. Isso exige um trabalho de construção que começa muito antes de qualquer processo formal.