Estratégia Corporativa

IA corporativa em 2026: o que separa quem lidera de quem segue

Carlos Viana compartilha sua visão sobre por que a maioria das empresas ainda usa IA de forma superficial, enquanto uma minoria silenciosa já opera com agentes

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A reunião que mudou minha perspectiva sobre IA corporativa

Semana passada, sentei com o CFO de uma empresa de logística de médio porte. Ele me chamou para falar sobre automação. Nos primeiros dez minutos, mostrou orgulhoso um chatbot que a equipe tinha implantado para responder dúvidas de RH. O sistema respondia sobre férias, benefícios e folha de pagamento. Funcionava bem. Economizava tempo da equipe de pessoas.

Aí eu perguntei: e o que você faz com os dados de comportamento que esse chatbot coleta? Silêncio. Depois de um momento, ele disse: "Não sabia que tinha dados lá."

Essa conversa resume o estágio em que a maioria das empresas brasileiras está com IA em 2026. Usam a ferramenta, mas não entendem o que ela pode fazer de verdade. Implantam a camada visível, a interface, o atendimento automatizado, e ignoram a camada que realmente muda o jogo: a inteligência acumulada, os padrões de comportamento, os sinais que alimentam decisões estratégicas.

A tese que defendo: IA como infraestrutura de decisão, não como ferramenta de eficiência

O mercado ainda trata IA majoritariamente como uma ferramenta para cortar custo operacional. Automatizar tarefas repetitivas, reduzir headcount em processos manuais, acelerar atendimento. Tudo isso é real e válido. Mas é a menor parte do valor.

O que estou vendo nas empresas que saem na frente é diferente. Para elas, IA virou infraestrutura de decisão. Os modelos não apenas executam tarefas: eles observam padrões, identificam anomalias, simulam cenários e retroalimentam o processo decisório em tempo quase real. Isso não é automação. É uma mudança na arquitetura de como a empresa pensa.

E aqui está o ponto que mais me incomoda quando ouço CEOs e CFOs falando de IA: a maioria está investindo na camada errada.


O que a maioria das empresas está fazendo errado com IA

Com esse contexto em mente, preciso ser direto sobre um padrão que vejo se repetir com frequência preocupante.

Automatizar o processo ruim em vez de redesenhá-lo

Uma das armadilhas mais comuns que encontro: a empresa pega um processo ineficiente, coloca IA por cima e chama isso de transformação digital. O resultado é um processo ineficiente que agora roda mais rápido. O erro continua lá, só que em escala maior.

Trabalhei com uma empresa de varejo que automatizou o processo de precificação dinâmica. O modelo aprendia com dados históricos de vendas e ajustava preços automaticamente. Funcionou por três meses. Depois, o sistema começou a replicar os vieses de precificação da equipe antiga, que cobrava mais em regiões de menor renda por razões que ninguém sabia explicar direito. A IA aprendeu o comportamento errado e o amplificou.

O problema não era tecnológico. Era de governança. Ninguém havia revisado os dados de treinamento com esse olhar crítico.

Automação sem revisão de processo é como colocar um motor turbo num carro com freios ruins. Você chega mais rápido no lugar errado.

Tratar LLMs como motores de pesquisa glorificados

Outro erro que me cansa de ver: empresas que implantam GPT ou Claude internamente como se fossem um Google melhorado. A equipe faz perguntas, o modelo responde, e todo mundo acha que está usando IA de forma avançada.

Usar um LLM para buscar informação é como usar um bisturi para descascar batata. Funciona, mas desperdiça o instrumento.

O que esses modelos fazem de realmente interessante é diferente: raciocinar sobre contextos ambíguos, gerar hipóteses a partir de premissas incompletas, sintetizar múltiplas perspectivas em recomendações estruturadas. Quando uma equipe de M&A usa um LLM para cruzar informações de due diligence, identificar inconsistências em demonstrações financeiras e sinalizar riscos que um analista humano levaria dias para mapear, aí estamos falando de leverage real.

A maioria das empresas está na fase da pergunta e resposta. As que lideram estão na fase da hipótese e raciocínio.

Ignorar o custo real de não ter estrutura de dados

IA não funciona no vácuo. Ela precisa de dados limpos, estruturados, rastreáveis. E aqui está o problema que ninguém quer enfrentar: a maioria das empresas de médio porte no Brasil opera com dados fragmentados entre cinco ou seis sistemas que não conversam entre si.

Na minha prática, quando começo um diagnóstico de maturidade de IA numa empresa, a primeira coisa que peço é o mapa de dados. Em quase todos os casos, esse mapa não existe formalmente. Os dados estão em planilhas de Excel que vivem no computador de uma pessoa específica, em sistemas legados que ninguém sabe ao certo o que exportam, em e-mails arquivados que deveriam ser registros estruturados.

Você não vai colocar um modelo de linguagem avançado para trabalhar numa estrutura dessas e obter resultado. Vai obter uma resposta sofisticada baseada em lixo.

O investimento em IA precisa começar pela governança de dados, não pelo modelo.


O que as empresas que lideram estão fazendo diferente

Mas entender o problema é só metade da equação. A outra metade é observar o que realmente funciona.

Agentes autônomos integrados ao fluxo operacional

A fronteira mais interessante que estou acompanhando em 2026 não é o uso de chatbots ou assistentes de produtividade. São os agentes autônomos, sistemas de IA capazes de executar sequências de tarefas sem intervenção humana passo a passo, orquestrando ferramentas, acessando APIs, tomando microdevisões dentro de um escopo definido.

Uma empresa de serviços financeiros que acompanho de perto implantou um agente que monitora contratos de fornecedores, identifica cláusulas de reajuste próximas do vencimento, cruza com dados de mercado e gera um relatório de renegociação priorizado por impacto financeiro. O que levava duas semanas de trabalho de uma equipe jurídico-financeira agora acontece de forma contínua, em tempo real.

O CFO não precisou de mais analistas. Precisou de menos reuniões de alinhamento, porque os dados chegam estruturados e acionáveis.

IA integrada ao ciclo de valuation e estratégia corporativa

Esse é o ponto que mais me entusiasma e que mais poucos exploram. IA aplicada a processos de valuation, análise de mercado e estratégia corporativa.

Pensem na quantidade de informação não estruturada que entra numa análise de M&A: relatórios setoriais, notícias, dados regulatórios, demonstrações financeiras em formatos diferentes, transcrições de calls de resultado. Um analista humano consegue processar uma fração disso. Um sistema bem construído consegue ingerir tudo, identificar padrões e sinalizar inconsistências que o analista não veria.

Não estou dizendo que IA substitui o julgamento humano nesse processo. Discordo de quem afirma isso. O julgamento estratégico, a leitura de cultura organizacional, a negociação, tudo isso continua sendo domínio humano. Mas a camada analítica que alimenta esse julgamento pode e deve ser acelerada por IA.

Já vi empresas reduzirem o ciclo de uma due diligence preliminar de semanas para dias usando modelos bem configurados para triagem de documentos e identificação de riscos. Isso não é ficção científica. É o que está acontecendo agora.

Governança de IA como vantagem competitiva

Algo que ninguém fala suficientemente: ter uma política clara de governança de IA virou diferencial competitivo, não apenas compliance.

Empresas que definem bem o que os modelos podem e não podem decidir sozinhos, que documentam os processos de treinamento, que estabelecem alçadas de supervisão humana em decisões de impacto, essas empresas evitam os erros que custam caro. E mais: constroem confiança institucional com parceiros, investidores e conselhos que cada vez mais perguntam: "como vocês estão usando IA e como estão controlando os riscos?"

Grupos de private equity e fundos de venture capital que conheço já incluem avaliação de maturidade de IA nos processos de due diligence. Não apenas se a empresa usa IA, mas se usa de forma estruturada e auditável.


O que só quem vive isso no dia a dia percebe

Tudo que descrevi até aqui é observável de fora. Agora vou ao que está nos bastidores.

O maior risco de 2026 não é a empresa que ainda não adotou IA. É a empresa que adotou superficialmente, acredita que está transformada e parou de questionar. Essas empresas têm uma falsa sensação de modernidade que as impede de ver o quanto ficaram para trás das que realmente constroem vantagem com IA.

Também vejo algo que poucas pessoas comentam: o custo humano da má implementação. Quando você automatiza de forma irresponsável, sem comunicar bem para a equipe, sem redesenhar papéis, sem criar novas oportunidades internas, você gera uma resistência cultural que vai sabotar qualquer iniciativa futura. Já acompanhei casos em que a implementação técnica foi impecável e o projeto fracassou porque a equipe não confiava no sistema e burlava os outputs toda vez que podia.

Tecnologia sem gestão da mudança é tecnologia que não funciona.


Se eu estivesse na sua frente agora

Diria para começar por três lugares antes de qualquer investimento em modelo ou plataforma.

Primeiro, mapeie onde estão seus dados críticos. Não o que você gostaria que estivesse estruturado. O que está de fato disponível, limpo e rastreável. Essa auditoria vai ser desconfortável. Faça ela assim mesmo.

Segundo, identifique um processo de alta frequência e baixa ambiguidade, algo que sua equipe faz todos os dias, que tem regras claras e que consome tempo desproporcional. Esse é o candidato para seu primeiro agente autônomo. Não comece pelo processo mais complexo. Comece pelo que vai gerar resultado visível em 90 dias e criar confiança interna.

Terceiro, defina quem na sua organização é responsável pela governança de IA. Não precisa ser um departamento inteiro. Pode ser uma pessoa com autoridade e tempo dedicado. Mas precisa existir. Sem isso, cada área vai usar IA do seu jeito, com padrões diferentes, e você vai perder controle da coisa antes de entender o que aconteceu.

Esses três passos parecem simples. A maioria das empresas que assessoro não fez nenhum dos três de forma consistente.


O que está em jogo

Daqui a três anos, a distância entre empresas que construíram infraestrutura de decisão com IA e as que ficaram na camada de automação superficial vai ser difícil de reverter. Não impossível, mas cara.

Não estou falando de ficção especulativa. Estou falando do que já está acontecendo nos setores mais competitivos: financeiro, logística, saúde, varejo de alto volume. A vantagem está sendo construída agora, silenciosamente, por empresas que a maioria ainda não identificou como referência.

A pergunta que deixo para o CEO ou CFO que chegou até aqui não é se sua empresa vai usar IA. Isso já está decidido pelo mercado. A pergunta é se você vai usar IA de forma que cria vantagem real, ou de forma que cria a ilusão de modernidade enquanto outros constroem o futuro.

Se quiser conversar sobre como diagnosticar a maturidade de IA da sua empresa e identificar onde está o maior potencial não explorado, faz sentido marcarmos um tempo.