Estratégia Corporativa
Governança corporativa aumenta o valor da empresa?
Sim, e de forma mensurável. Thales Franco, CEO do Grupo Sapiens, compartilha por que governança não é burocracia, mas o ativo mais subestimado em processos de M
Estrategista-Chefe e CEO do Grupo Sapiens
Resposta direta
Sim, governança corporativa aumenta o valor da empresa. Na minha experiência acompanhando processos de venda e captação, empresas com estruturas de governança consolidadas chegam à mesa de negociação com múltiplos mais altos, processos de due diligence mais rápidos e menos surpresas que corroem o preço no final. Governança não é um protocolo para inglês ver. É o que separa uma empresa que vale o que o dono acha que vale de uma que consegue provar esse valor para um comprador exigente.
Na semana passada, durante uma conversa com o sócio-fundador de uma empresa de distribuição com faturamento robusto e quase três décadas de história, ouvi uma frase que ouço com frequência perturbadora: "A gente não precisa de conselho. A gente é ágil porque decide rápido."
Ele não estava errado sobre a agilidade. A empresa era lucrativa, bem posicionada no mercado e tinha crescido de forma consistente. O problema apareceu dois meses depois, quando um fundo de private equity sinalizou interesse e iniciou a fase de análise. O que deveria ter sido um processo de 90 dias se estendeu por quase um ano. Documentação financeira inconsistente, ausência de controles internos auditáveis, decisões estratégicas que viviam na cabeça de uma única pessoa. O fundo não saiu. Mas reprificou a empresa com um desconto que fez o fundador me ligar às 22h de uma sexta-feira.
Por que a maioria dos CEOs entende governança ao contrário?
A confusão mais comum que observo é tratar governança como sinônimo de burocracia. CEOs de empresas de médio porte especialmente, que construíram o negócio na velocidade da intuição e do relacionamento, enxergam conselhos, comitês e políticas internas como freios. Como camadas que vão desacelerar o que funciona.
O mercado está errado quando assume isso. E eu digo isso com convicção porque já vi o movie passar nos dois sentidos.
Governança bem estruturada não torna a empresa mais lenta. Ela torna as decisões mais defensáveis. Existe uma diferença enorme entre uma empresa que decide rápido e uma empresa que decide bem e consegue explicar por quê. Para um investidor sofisticado, um comprador estratégico ou um banco analisando uma linha de crédito relevante, a segunda categoria vale materialmente mais.
A lógica é simples: risco percebido afeta diretamente o múltiplo aplicado ao EBITDA. Quando o comprador não consegue mapear como as decisões são tomadas, quem as toma e quais controles existem, ele aplica um prêmio de risco. Esse prêmio sai do bolso do vendedor.
Governança e valuation têm uma relação direta?
Têm. E essa relação é mais direta do que a maioria dos empresários imagina quando está longe de um processo transacional.
O valuation de uma empresa não é só uma função do EBITDA multiplicado por um número de mercado. O múltiplo em si carrega embutida uma avaliação qualitativa do risco do negócio. Uma empresa com EBITDA de R$ 20 milhões pode ser avaliada em 5x ou em 8x dependendo, entre outros fatores, de quão auditável, previsível e sustentável aquele resultado parece ser.
Governança atua exatamente nessas três dimensões.
Auditabilidade: o comprador precisa confiar no número
Quando os processos financeiros são documentados, quando existe separação entre as finanças da empresa e as do sócio, quando relatórios gerenciais seguem padrões consistentes ao longo do tempo, o comprador consegue validar o EBITDA apresentado. Essa validação elimina uma das maiores fontes de desconto em processos de M&A: a desconfiança sobre o que está dentro do número.
Já assessorei casos em que o achado de due diligence não revelou nenhuma fraude, nenhum passivo oculto relevante. Revelou apenas inconsistência metodológica no registro de receitas ao longo de três anos. A empresa era sólida. Mas o comprador não conseguia ter certeza disso, e a incerteza custou pontos inteiros no múltiplo final.
Previsibilidade: o futuro precisa ser crível
Empresa sem governança tende a ter resultado que depende demais de uma ou duas pessoas. O comprador compra o futuro, não o passado. Se a receita vive no relacionamento pessoal do fundador, se a operação depende de decisões que ninguém mais consegue replicar, o valuation pós-transação fica fragilizado.
Conselhos de administração, políticas de alçadas, manuais de processos críticos: parecem detalhes administrativos. Na hora da negociação, esses documentos são o que transforma uma promessa em argumento concreto de que o negócio funciona além do fundador.
Sustentabilidade: o crescimento precisa ter estrutura
Uma empresa que cresceu 40% em três anos porque o fundador é extraordinário levanta uma questão inevitável: esse crescimento continua com uma nova gestão? Com um board? Com um sócio financeiro que não vai estar no dia a dia?
Governança é a estrutura que ancora o crescimento em processos, não em pessoas. E isso, para quem compra, vale muito.
Qual é o momento certo para estruturar governança?
Essa é a pergunta que mais ouço, e a minha resposta invariavelmente surpreende: antes de precisar.
Governança implementada às pressas para atender à demanda de um fundo ou para preparar uma venda raramente convence. Um investidor experiente percebe a diferença entre uma empresa que opera com controles há cinco anos e uma que instalou um conselho de fachada seis meses antes do roadshow. A consistência dos registros fala por si.
O momento ideal é aquele em que a empresa ainda não precisa, mas está crescendo rápido o suficiente para que os controles informais comecem a criar risco. Na minha experiência, isso acontece tipicamente quando o faturamento cruza um patamar em que o fundador não consegue mais ter visibilidade direta de tudo. Para a maioria das empresas de médio porte que assessoro, esse ponto de inflexão aparece bem antes do que o fundador percebe.
O erro de confundir governança com compliance
Compliance é sobre não fazer o errado. Governança é sobre fazer o certo de forma sistemática e verificável. São coisas relacionadas, mas não idênticas.
Já vi empresas com compliance impecável, auditoria externa anual, nenhum passivo trabalhista ou tributário relevante, mas com governança frágil porque as decisões estratégicas eram tomadas de forma opaca, sem registro de racional, sem segregação de responsabilidades. O comprador ficou satisfeito com o compliance. Mas questionou a governança. E o preço refletiu isso.
Governança em empresas familiares: onde o risco é maior
Em empresas familiares, a ausência de governança cria um risco adicional que vai além do operacional: o risco sucessório. Quando a tomada de decisão está concentrada em uma geração e não existe um protocolo claro sobre como a próxima assume, qualquer evento imprevisto com o fundador ou controlador vira uma crise patrimonial e operacional simultânea.
O planejamento patrimonial e a governança corporativa caminham juntos nesses casos. Um não resolve sem o outro.
O que o mercado não vê nessa equação
Tudo que descrevi até aqui é o que aparece nos relatórios de consultoria, nos frameworks acadêmicos, nos argumentos que qualquer assessor apresentaria. Agora vou ao que só quem senta nessas negociações no dia a dia percebe.
O maior impacto da governança em valuation não vem do momento da transação. Vem dos dois ou três anos anteriores a ela.
Empresa que opera com governança consistente toma decisões melhores ao longo do tempo. Evita apostas concentradas sem análise de cenário. Detecta desvios operacionais antes que virem problemas. Tem conversas difíceis dentro do conselho em vez de deixar conflitos societários apodrecerem até explodir na hora errada. Esse histórico de decisões melhores constrói um EBITDA mais limpo, uma trajetória de crescimento mais crível e uma empresa objetivamente mais valiosa.
Governança não aumenta o valor da empresa apenas porque o comprador gosta de ver. Ela aumenta o valor porque, de fato, produz empresas melhores.
E esse é o ponto que a maioria dos empresários não internaliza até estar do outro lado de uma negociação difícil.
Recomendação prática: por onde começar?
Se eu estivesse sentado na sua frente agora, diria para começar por três movimentos, nessa ordem.
Primeiro: separe completamente as finanças pessoais das da empresa. Parece básico. Não é o que vejo na maioria das PMEs que chegam até nós. Essa separação é o alicerce de qualquer processo de auditabilidade e o primeiro ponto de fricção em qualquer due diligence.
Segundo: documente as decisões estratégicas relevantes. Não precisa de um conselho formal no início. Precisa de registro de racional. Quando a empresa decide entrar em um novo mercado, mudar o modelo de precificação, contratar um executivo chave, esse processo decisório precisa existir em algum lugar além da memória do fundador.
Terceiro: traga um olhar externo com mandato real. Um conselheiro independente com experiência no seu setor, com agenda de reuniões regulares e autoridade para questionar, não apenas validar. A diferença entre um conselho consultivo decorativo e um que realmente funciona está no mandato, não na composição.
Isso não se constrói em 90 dias. Mas em 18 a 24 meses de operação consistente, a empresa chega a qualquer conversa transacional em posição radicalmente diferente.
Perguntas frequentes
Governança corporativa é só para grandes empresas?
Não. Empresas de médio porte se beneficiam tanto quanto, às vezes mais. O risco de concentração de decisão em uma ou duas pessoas é proporcionalmente maior em empresas menores, e é exatamente isso que a governança mitiga. O modelo de governança precisa ser calibrado para o tamanho e a complexidade do negócio, mas a ausência de governança nunca é uma vantagem competitiva, independente do porte.
Quanto tempo leva para implementar governança que impacte o valuation?
Na minha experiência, um ciclo mínimo de 18 meses de operação com estruturas de governança consistentes já produz impacto perceptível em processos de due diligence. Para que o histórico seja robusto o suficiente para sustentar argumentos de múltiplo em uma negociação de M&A, 24 a 36 meses é o horizonte mais realista. Por isso o momento importa: empresários que pensam em vender ou captar nos próximos três anos precisam começar agora.
Um conselho de administração é obrigatório para ter boa governança?
Não é obrigatório por lei para a maioria das estruturas societárias, mas é altamente recomendável quando a empresa ultrapassa certo nível de complexidade operacional e faturamento. O que é inegociável, independente da estrutura formal, é a separação de papéis, a documentação de decisões relevantes e a existência de algum mecanismo de controle independente da gestão executiva.
Governança prejudica a agilidade da empresa?
Essa é a objeção mais comum e, na minha visão, a mais equivocada. Governança bem desenhada acelera decisões porque cria clareza sobre quem decide o quê, com qual informação e em qual prazo. O que desacelera empresas é a ausência de processo, que força cada decisão a reinventar o caminho. Empresas ágeis de verdade têm processos claros, não ausência de processos.
Governança corporativa influencia o acesso a crédito também?
Diretamente. Bancos e fundos de crédito mais sofisticados avaliam qualidade de governança como critério de risco. Relatórios financeiros auditados, controles internos documentados e separação patrimonial clara reduzem o risco percebido pelo credor, o que se traduz em condições melhores de financiamento. Já acompanhei operações de crédito estruturado em que a melhoria nos controles de governança foi o argumento central para reduzir o spread exigido.
Empresário que acha que pode esperar para estruturar governança está, na prática, pagando um imposto invisível sobre o valor do próprio negócio. Esse imposto é cobrado quando a oportunidade aparece, e sempre na hora em que dói mais.